terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

GRITA LIBERDADE

Por mais que eu me deixe cair no esquecimento não posso varrer da mente aquelas horríveis palavras de amor, aquelas tristes querelas de uma mente perturbada pelo medo e pelo ódio do sofrer. Por mais que tente nunca serei eu a deixar este lugar do paraíso para onde me deixo cair constantemente, como se a fera se regredisse constantemente na minha procura.

Quase noite e a cama estremece de frio como se a noite a fosse devorar para um local distante. Daí a instantes chegará o sono com todas as suas vertentes míticas carregadas de fantasias. Daí a pouco ficará o céu encoberto por um manto de selváticos gritos de liberdade: são as criaturas da noite na sua constante demanda de felicidade. Num sinal cirúrgico rasgam-se os céus num negro azulado pela estrada galáctica.

Os fumos intensificam-se com a chegada do frio nocturno e vão subindo por nós acima em aspirais embriagadas, culminando em ridículas figuras no céu. Ainda recordo as longas tardes à janela a contemplar o fim de tarde, a contrair todos os movimentos das pessoas que por mim passavam num ofuscante berburim, num turbilhão de agonia "stréssica", em rumo de casa sua. Felizes lembranças de um alaranjado fim de tarde à janela da minha casa. Do ruído das crianças pouco ou nada se ouve.

Há muito que me deixei ensurdecer pelo gemido medonho das máquinas transportáveis de sonhos inúteis como aqueles que as conduzem sem rumo, sem destino, sem canção. As crianças cresceram e abandonaram o baloiço, deixaram o vai e vem da brincadeira para se entregarem ás viagens alucinatórias dos vícios do mundo, de pecado da alma ardente, da aguardente fermentada nos quintos dos nossos infernos.

Mas continuo a sorrir porque sou um deles, um dos indomáveis e demoníacos maquinistas, derrapantes e alegres como o pó dos seus casacos. Sou mais um filho da luz da madrugada à luz da penetrante noite citadina. Sou mais um contribuinte do escuro e malcheiroso ar que respiro.

Quantas vezes me apeteceu gritar liberdade, quantas vezes, como tantos outros, me apeteceu fugir desta grima ardente e entregar-me aos prazeres da natureza respirando o canto dos pássaros. Quantas e quantas vezes me apetece chorar o meu crime, contar a este mundo. Quanto tempo levei a sonhar sem nada fazer, sem sequer escrever a quem devia. Quantas e quantas... coisas que me escorregam pela mente.

Mas não consigo desvanecer o delírio daquelas frases aterradoras. Do amor que me prometeu como quem se oferece à afiada ponta de uma espada. Naqueles momentos senti o levantar de uma bando de aves assustadas do telhado da minha casa. O ruído quebrara o ambiente que me gelara a voz.

Grita liberdade e sai! Sai para a rua e confessa que viste o bailado dos anjos, que te sentes oprimido na cor da tua pele, na pele que vestiste.

Grita liberdade e foge para longe de ti. Do teu assustador assombramento, da sombra de ti mesmo.

Liberta-te! Bate as asas para longe de ti, e de mim se necessário for.

Chegou o tempo de reclamares o teu perdão, de ficares com o teu quinhão do medo, da dor, da felicidade, da alegria. É chegado o tempo de dizer basta, de te sentires rasca, de te sentires à rasca.

Liberta-te! Dos fumos, das máquinas, abstrair-te de tudo e de todos como tanto desejas.

Sinto-me afugentado por tanto pavor que sem qualquer razão aparente se misturou com a paixão.

Chegou a noite e com ela os meus mais belos sonhos. Os sentimentos começam a embrulhar-se com a fantasia e leva-nos a uma longínqua viagem.

No meio da constante reviravolta de fantasias deixo-me levar, mergulho sem sequer olhar para trás. Sem incessantes tempestades de desejos que se revelam cada vez mais constantes.

Que digam que é loucura, pouco me importa. Se dizem sabores, para eles o meu desprezo. Quero continuamente mergulhar numa rotina indisciplinar.

Ao longe numa cortina ténue começo a ver o madrugar de mais um dia, de mais qualquer coisa que se está para adivinhar.

Não mintas o teu amor por mim, não mintas onde passaste a noite. Não digas de novo tão amargas e cortantes palavras, não as repitas, não as atormentes mais uma vez.

Grita liberdade! Grita...

Grita o mais alto que tu puderes como se a força dos teus pulmões nunca te fossem faltar, como se o desejo fosse maior que a consciência, como se eu não conseguisse estar mais presente do que estou nos teus braços.

Quase adivinhara o que se iria passar naquele fatídico momento. Quase que ouvira em sonhos distantes tais palavras.
A música agora tocava baixinho, a escuridão invadia devagar o nosso beijo breve na brisa nocturna.

Um beijo? Acho que não chegou a tanto. Foram uns simples passar de lábios. Sem paixão, sem desejo, só simplesmente invadidos pelo medo, pela dor. Os mesmos sentimentos com que começamos à muito.

Não que houvesse a recusa da paixão, que não houvesse dor naquele gesto húmido, mas não o senti naquele ilúcido momento. E o quanto o ambicionei. Quantos sonhos evadidos em tão amargas palavras.

Sinto ainda a mesma monotonia daquela estrada carrega por aqueles estúpidos fazedores de nada. E como se entregam eles a tão delicada tarefa.

Não consigo liberdade para os seus actos, como se me estivessem a amarrar na sua plenitude de simples hipócrita.

Grita liberdade, mas grita baixinho para que os sonhos não acordem e a manhã não se levante.....



Poeta das Marés

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