Por onde se começa um email?
Talvez seja pelas saudações habituais: Como estás? Que tens feito?
Simples frases que nos fazem entrar num diálogo, mas muito pouco original para começar a prender a atenção de alguém.
Ao som de Jorge Palma, prefiro perguntar como podemos criar o nosso Bairro do Amor?
Talvez seja pelas saudações habituais: Como estás? Que tens feito?
Simples frases que nos fazem entrar num diálogo, mas muito pouco original para começar a prender a atenção de alguém.
Ao som de Jorge Palma, prefiro perguntar como podemos criar o nosso Bairro do Amor?
Talvez fosse bom começar por desenhar as ruas e passeios num papel um pouco gasto pelo tempo e o espaço onde habita. Seriam traçadas a esquadro, ou apenas desenhadas de olhos fechados para onde a nossa imaginação nos quisesse levar? Teremos que ponderar este projecto.
Como seriam as casas? Brancas de dia e escuras à Noite, pouco iluminadas para que a luz não deturpasse os pensamentos e limitasse a fala. Sim, porque nelas habitarão sonhadores que se consumirão em sonhos despejados em copos translúcidos de utopia.
Rir-se-ão dos próprios rostos encobertos pela sombra, pelo medo do mundo dos Outros. Que lhes preocupa, nem uma pequena dose querem desta amarga realidade. Amarga para estes construtores de pontes que não conduzem a lado nenhum atravessando rios de solidão.
Haverá um jardim onde as crianças de outros bairros que não o do Amor, invadirão a sua alma cheia de sons verdejantes. Gritos ternos que ensurdecerão a privacidade dos lares despidos de futuro, continuidade, infância.
Mais ao canto podemos ver, ao caminharmos pela Rua Azul, aquela estreita e bela, uma pequena casa de telhados verdes e paredes alaranjadas. Disseram-me um dia deste que morava lá um Anjo. Mas eu não acredito, acreditas que um Anjo escolha este bairro? Talvez tenhas razão.
Bom, mas a casa está lá e eu estou a tentar encontrar a porta. Claro, os Anjos não precisam de portas para sair, mas não seria prudente construir uma para que não entrassem? Para que querias uma porta em vidro? Pois, assim poderíamos ver o interior desta casa.
Olha, ele aproxima-se em passos leves, daqueles que jamais farão barulho nos nossos corações. Consigo ver o seu olhar transpirado de alegria. Mas espera, como podemos ver estes olhos se não existe rosto. Presta atenção e tenta decifrar o seu rosto. Apenas sentimos o esboço de um sorriso, mas que fez ele ao seu rosto? Que se lixe, eu apenas queria conhecer o Anjo, não vim aqui para decifrar mistérios nem para criar mitos. Mas seria isto que se procura num Anjo? Algo estranho, não achas?
Porque me leva ele a esta janela desta casa? Ouve-se o silêncio a ser escrito num teclado ruidoso e gasto, molhado por pequenas gotas que lhe escorrem do rosto.
Que faz ela?
Mais uma mensagem?
Pois é! Os últimos dias têm sido preenchidos pelo constante martelar dos dedos na busca de uma dissuasão que acabará drástica e agoniante, mas que poderei fazer eu?
Sinto-me invisível como se estivesse a escrever a história das suas vidas e paixões. É impossível parar de desenhar os seus destinos.
O frasco de veneno a seu lado, perto da cadeira forrada pelo cortinado que se rompeu um dia destes. Porque bebeu a poção? Não saberá que a morte não levou o seu amado?
Olha para fora da janela! Ele já caminha na tua direcção.... Tarde de mais....
Estamos perto da garagem, ouço o berburim das guitarras. Onde estará ele? Também eu gostava de ouvir o ensaio, até porque vamos tocar aquela música, a tal que te tenho falado. Mas onde estará ele?
Se isto continua assim desistimos e vamos todos trabalhar, dizem alguns.
Espera!..... Leva-me às grutas....
Já devia ter calculado, se ela se quisesse esconder dele escolheria precisamente o esconderijo dos dois. Parece-te confuso? Quando queremos fugir na esperança que alguém nos encontre este é o sitio ideal. Passaram momentos de amor na humidade deste abrigo. Se escutares com atenção ouvirás vozes a sussurrar palavras ternas de amor misturadas com uma respiração acelerada pela paixão do desejo, do momento, pela luxúria de dois corpos despejados em cartões cuidadosamente alinhados nas curvas dos seus rostos.
Mas ela não está aqui. Procura neste canto aí....
Ele corre em direcção à janela já embaciada pela dor e pela transpiração do veneno. Mas de pouco serve. Ela estende-se pelos braços do Anjo, deixando cair o rosto nas minhas mãos, as mesmas onde depositou o seu fado cegamente.
Ao fundo ouvem-se os primeiros três acordes. Vem depressa, é a tal música....
Como se acaba um email?
Acaba-o tu.....

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